sábado, 13 de março de 2010
.. desapresseospassos (1)
Saiu cedo sem falar com ninguém. Não se lembrou que não tinha ninguém a quem falar. Andou. Viu as ruas, as folhas, os prédios, as vidas, a vida. Andou. Uma freada repentina de um carro e o barulho do recreio da escola. Era tudo o que se ouvia. Pássaros alto voavam, o da frente diminuía o atrito com o ar. Essa organização deu náuseas. Pensou em instinto de sobrevivência. Perguntou a si mesmo se isso fala mais alto que vontade. Parou de pensar. Abriu os olhos estava em casa, na cama e eram 3 da manhã. Revirou-se um pouco e logo impaciente se levantou. Olhou pela janela. Viu a escola sem recreio, viu o carro estático e um pássaro solitário. Pensou na organização. Teve vontade de rasgar sua agenda e tudo aquilo que estava nela. Sua vida programada. Lembrou-se do instinto de sobrevivência e se viu movido apenas por ele. Mais nada. Bebeu um copo de água gelada que desceu fazendo-o se sentir vivo. Mas não límpido e sim doente. Essa sensação foi boa mas lembrou-se da vida no do dia seguinte. Sairia com seu jeans velho pra fazer o de sempre. Sairia com sua agenda de sempre pra fazer coisas velhas. O sentido de tudo não existia, talvez era só instinto mesmo. Olhou de novo pela janela e não conseguiu ver nada. Antes via estórias de amantes, de samba, de crimes. Amores rebeldes, sambas trôpegos e crimes perfeitos. Agora não via nada. Não ouvia o silêncio, antes sua melodia preferida. Pensava no que era. No que não era. No que tinha sido. E no que seria. Chegou a conclusão que tinha deixado sua vida passar. Conviveu intensamente consigo. Tinha aprendido, enxergado, exagerado, mas do que valeu? Lavou o seu rosto, olhou-se no espelho de um jeito diferente. Que rugas eram aquelas? Rugas tangenciadas, fantasmas, com certeza. De fato não eram suas. A barba desfeita pra mostrar ser despachado, tranqüilo. Não era, ele sabia. Os olhos vivos tão perdidos, parados. A máscara esculpida pela precisão de cada volta por cima. Riu de si mesmo pela primeira vez. Sentou-se no chão. Riu com força, com a alma, com o rosto que envelhecia. Se libertou. Vestiu seu velho jeans e foi viver sua vida nova.
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