Um dia andando destraída, a lua chamou minha atenção. Ela seguia dissonante, rápida ou lenta, e convidou-me pra uma corrida, rumo aquela infinita escuridão. Eu não estava fazendo nada, e aquilo tudo pra mim era um mistério, segurei-lhe a mão. Logo de cara, assutei-me e quis voltar. Mas já era muito tarde para isso, eu já voava alto, e sozinha não voltaria ao meu lugar. Tive que seguir, aos poucos me acostumei com a noite. Estava frio, e isso não era tão ruim. Estava sombrio, e as sombras se vestiram em mim. Taparam o frio, me acolheram. Me mostraram as belezas de onde eu estava, tão vazio, tão obscuro, tão rico, eu me impressionava. A cada descoberta eu me identificava. Até a lua, que de longe brilhava, não tinha brilho, roubava o brilho do sol. De perto tudo era tão diferente, e o que eu julgava triste, ou o que eu achava que tinha o maior glamour do mundo, se mostrou equilíbrio, ternura, roubo e sedução. Um jogo de tédio, um jogo de atração, um jogo de descobertas, de verdades incertas, que sempre tinham razão. Aquilo se pareceu tanto comigo, o ambiente, os obstáculos, o clima, os artifícios, uma sina de quem tem como sacrifício ser nada pra quem a considera tudo e ser tudo pra quem a julga como nada. E era tão estranho a minha corrida com a lua, aos poucos éramos uma só, eu vi que quem usava o brilho do sol pra mostrar às pessoas era eu. Eu buscava nas minhas profundezas, meu sol esplendido interior. E minha verdadeira face ficava intacta e imperceptível aos olhos de quem for. Quem ia chegando perto, via meus desertos, vazios, e confusões, frios extremos, perigos a vista, se assustava e voltava. Quem insistia podia ver que nem tudo era assiim. Como eu andei na noite, eles andaram em mim. Andar na noite, sem ter certeza, correr pra qualquer lugar, dar passos firmes na escuridão inexata, achar que vai para um lugar quando se vai para outro, é assim na vida, é assim em mim. Procurar algo, e encontrar surpresas. Boas e ruins. O problema é que a lua vive enclausurada em si, ela não desci, ela apenas corre e as vezes pára, rápida ou lenta, ela gosta de ficar ali. Olhando todos, amando alguns, e sendo olhada, porque ela carrega a ingênua verdade, de que de onde está, só olham suas qualidades, seu brilho. O mínimo que ela enxerga é que as pessoas, os pássaros, as flores, a vida, tem dúvida sobre o que se passa em seu coração, é possível a lua ser feliz se alimentando de escuridão e tendo como compania um rastro mórbido da solidão? Não, a lua gosta do frio, do vazio incerto de se recolher, mas ela também sofre, ela foge, ela corre, se entristece por ninguém invadir seu mundo, mas ela sabe que a culpa é dela, então ela faz de sua órbita e da gravidade, sua cela. E gosta um pouco, mais finge gostar ainda mais, do que ela tem, deixando de lado o que poderia ter.
A lua se parece comigo, e eu corro o perigo de viver meus séculos assim, mas posso fazer diferente, posso ser meu brilho, e não apenas usar dele pra ser normal e passar despercebida. Posso deixar o escuro e iluminar a vida.
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